Documentos: onde a IA poupa mais horas sem ninguém dar por isso

Faturas, guias, contratos, participações. Os estudos sobre extração de dados com IA mostram que a fiabilidade depende menos do modelo e mais de um passo que muitos projetos esquecem, a verificação.

Pergunta a qualquer equipa administrativa onde vai o tempo e a resposta é quase sempre a mesma: documentos. Abrir o PDF, encontrar o número, copiá-lo para o ERP, verificar se bate certo com a encomenda, arquivar, repetir. É trabalho simples que nunca acaba, e por isso um dos primeiros sítios onde a IA vale a pena.

O que a investigação mostra

Um estudo publicado na Nature Communications em 2024 testou a extração automática de dados a partir de artigos científicos, um tipo de documento denso, com tabelas, unidades e formulações variadas (Polak e Morgan, 2024). Mais do que a precisão final, o resultado interessante foi a diferença que fez um passo extra: obrigar o modelo a verificar as suas próprias extrações, com perguntas de confirmação.

Sem o passo de verificação, a precisão foi de 42,7%. Com ele, subiu para 90,8%, mantendo uma taxa de captura de 87,7%.

Um segundo estudo, que testou o GPT-4 em tarefas de revisão sistemática da literatura, chegou a uma conclusão complementar. Na extração de dados, o desempenho foi moderado, e os autores aconselham “cautela substancial” antes de dispensar a revisão humana (Khraisha et al., 2024).

Os dois estudos usam documentos científicos, não faturas. Mas a lição transfere-se: a fiabilidade da extração depende também, e muito, do desenho do processo à volta do modelo.

Porque é que os documentos são um bom primeiro passo

O volume é alto e constante: todas as semanas chegam faturas, guias, provas de entrega, contratos e pedidos. As regras são claras, porque se sabe que campos tirar, onde os pôr e com que os comparar. E o resultado verifica-se: ou o número está certo, ou não está, e há quase sempre um segundo sistema com que comparar.

Um processo em quatro passos

  1. Classificar o que chega: fatura, nota de crédito, guia, contrato, reclamação.
  2. Extrair os campos relevantes, guardando para cada valor o sítio do documento de onde foi lido.
  3. Verificar, como no estudo: confirmar cada extração com o próprio documento e cruzá-la com o que já existe, a encomenda no ERP, a viagem no TMS, a apólice no sistema de sinistros.
  4. Tratar as exceções: abrir a reclamação, pedir o documento em falta, ou passar o caso a uma pessoa quando algo não bate certo.

Onde costuma correr mal

  • Automatizar a extração e esquecer a verificação, quando tirar os números do PDF é metade do trabalho, e a metade menos fiável.
  • Exigir 100% antes de arrancar, quando o objetivo é que a pessoa só veja os casos que precisam dela.
  • Não guardar a origem de cada valor. Sem ela, verificar demora tanto como fazer à mão.

O que muda para a equipa

O trabalho da equipa passa a ser de revisão. Em vez de abrir todos os documentos, vê uma lista de exceções: a fatura com preço diferente da encomenda, a guia com quantidades a menos, o contrato com uma cláusula fora do padrão. É um trabalho mais interessante, e que se consegue terminar até ao fim do dia.

Fontes

  1. Polak, M. P., Morgan, D. (2024). Extracting accurate materials data from research papers with conversational language models and prompt engineering. Nature Communications, 15, 1569.
  2. Khraisha, Q., Put, S., Kappenberg, J., Warraitch, A., Hadfield, K. (2024). Can large language models replace humans in the systematic review process?. Research Synthesis Methods.

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