Humano no circuito: aprovações que protegem sem travar a operação

Uma meta-análise publicada na Nature Human Behaviour concluiu que juntar pessoas e IA nem sempre dá melhor resultado. O que isso ensina sobre onde pôr a aprovação humana, e como a desenhar.

Quando uma empresa põe um agente de IA a trabalhar, a primeira reação da direção costuma ser: “Ok, mas tudo passa por uma pessoa.” É uma reação compreensível. A investigação mostra, no entanto, que pôr uma pessoa em cima de uma IA não é, por si só, uma garantia de melhor resultado.

O que diz a maior revisão sobre o tema

Em 2024, investigadores do MIT publicaram na Nature Human Behaviour uma revisão sistemática e meta-análise de experiências que compararam três situações: pessoas sozinhas, IA sozinha e pessoas a trabalhar com IA (Vaccaro, Almaatouq e Malone, 2024). As conclusões contrariam a intuição:

  • Em média, a combinação pessoa e IA foi pior do que o melhor dos dois a trabalhar sozinho (g de Hedges = −0,23).
  • A perda concentrou-se em tarefas de decisão. Em tarefas de criação, a combinação tendeu a ser positiva, embora sem significância estatística isolada.
  • Quando a IA era melhor do que as pessoas, acrescentar uma pessoa piorou o resultado (g = −0,54). Quando as pessoas eram melhores, acrescentar IA melhorou-o (g = 0,46).

A supervisão humana acrescenta valor onde a pessoa sabe algo que a IA não sabe. Onde não sabe, tende a acrescentar ruído.

Porque é que as pessoas deixam de prestar atenção

A psicologia da automação estuda este problema há décadas. Numa revisão de referência, Parasuraman e Manzey (2010) descrevem dois fenómenos: a complacência, que surge sobretudo quando a pessoa tem várias tarefas ao mesmo tempo, e o viés de automação, que leva tanto a aceitar propostas erradas como a não reparar no que o sistema deixou escapar. Ambos afetam principiantes e especialistas.

Uma experiência de campo com 181 recrutadores profissionais mostrou o mesmo efeito na prática. Os recrutadores apoiados por uma IA melhor, mas imperfeita, tiveram resultados piores do que os apoiados por uma IA mais fraca. Quem tinha a IA mais fraca passou mais tempo em cada currículo e analisou-o com mais cuidado (Dell’Acqua, s.d.).

Como desenhar aprovações que funcionam

Daqui resultam regras concretas:

Nível Exemplos Regra
Baixo Classificar documentos, preparar rascunhos O agente faz, fica registado
Médio Email a um fornecedor, ordem de trabalho O agente faz dentro de limites, revisão por amostragem
Alto Pagamentos, contratos, comunicações sensíveis O agente prepara, uma pessoa aprova

E, para que a aprovação acrescente valor:

  1. Aprovar só o que a pessoa consegue avaliar melhor do que o sistema. Por exemplo, o contexto comercial, a relação com o cliente ou exceções conhecidas.
  2. Mostrar porquê e de onde. Cada proposta deve vir com os dados usados e a fonte. Uma pessoa que vê o raciocínio aprova com critério; uma que só vê o resultado aprova por hábito.
  3. Poucas aprovações, mas reais. Uma fila de cem aprovações por dia gera complacência. Uma fila de dez gera atenção.
  4. Medir a qualidade da aprovação. Quantas propostas são alteradas, e em que tipo de caso. Se ninguém altera nada, ou o sistema é excelente, ou a aprovação deixou de ser real.

Alargar com base no histórico

Cada aprovação é um dado. Ao fim de algumas semanas percebes que propostas são aprovadas sem alterações e quais são corrigidas. As primeiras podem descer de nível; as segundas mostram onde o agente precisa de melhores regras. Assim, a autonomia do agente alarga-se um tipo de caso de cada vez, sempre com base no histórico.

Fontes

  1. Vaccaro, M., Almaatouq, A., Malone, T. (2024). When combinations of humans and AI are useful: A systematic review and meta-analysis. Nature Human Behaviour, 8(12), 2293-2303.
  2. Parasuraman, R., Manzey, D. H. (2010). Complacency and Bias in Human Use of Automation: An Attentional Integration. Human Factors, 52(3).
  3. Dell'Acqua, F. (s.d.). Falling Asleep at the Wheel: Human/AI Collaboration in a Field Experiment on HR Recruiters. Laboratory for Innovation Science, Harvard Business School (working paper).

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