Previsão de procura: quando a folha de cálculo deixa de chegar

A maior competição de previsão alguma vez feita, com dados reais do Walmart, mostrou pela primeira vez a aprendizagem automática a superar claramente os métodos estatísticos. O que isso significa, e onde estão os limites.

Em quase todas as empresas de distribuição, indústria ou retalho existe uma folha de cálculo de previsão. Foi construída por alguém competente, ao longo de anos, e funciona razoavelmente bem. Até ao dia em que a procura muda de padrão e ninguém percebe porquê a tempo. A pergunta é se há hoje métodos claramente melhores, e a investigação tem uma resposta.

A competição M5

As competições M, organizadas desde 1982 por Spyros Makridakis, são a referência mundial em métodos de previsão. A quinta edição, em 2020, usou dados reais do Walmart: 42.840 séries de vendas organizadas em hierarquia, do total até cada produto em cada loja, com previsões pedidas para 30.490 combinações de produto e loja. Participaram 5.507 equipas de 101 países (Makridakis, Spiliotis e Assimakopoulos, 2022).

O resultado marcou uma viragem. Foi a primeira competição M em que todos os métodos do topo foram de aprendizagem automática pura e claramente melhores do que todos os métodos estatísticos de referência.

O método vencedor foi 22,4% mais preciso do que o melhor método estatístico de referência. Os cinco primeiros superaram todos a marca dos 20%.

O que os vencedores fizeram de diferente

Três ingredientes repetem-se nos métodos do topo:

  1. Aprender com muitas séries ao mesmo tempo. Em vez de um modelo por produto, um modelo treinado com todos os produtos e lojas. Os autores chamam-lhe cross-learning, e praticamente todos os 50 melhores métodos o usaram.
  2. Informação externa. Preços, promoções e eventos do calendário. Mesmo nos métodos estatísticos clássicos, acrescentar estas variáveis melhorou a precisão em 6% a 13%.
  3. Árvores de decisão em gradiente. A maioria dos métodos de topo usou LightGBM, uma técnica de aprendizagem automática rápida e robusta, hoje amplamente disponível.

Onde estão os limites

A competição também mostra o que a aprendizagem automática não resolve. O ganho foi grande nos níveis agregados, cerca de 40% no total de vendas, mas pequeno ao nível de cada produto em cada loja, onde rondou os 3%. A procura de um artigo individual, num dia, numa loja, continua a ter muito de imprevisível. Só 7,5% das equipas bateram o método de referência. E os autores lembram que os resultados vêm de um retalhista e de um setor.

O que isto significa para a tua operação

  • Prevê ao nível em que decides: se a decisão é a encomenda semanal ao fornecedor por família de artigos, é aí que o ganho é maior.
  • Usa a informação que já tens. Preços, promoções e calendário estão quase sempre num sistema, e a M5 mostra que valem mais do que um algoritmo sofisticado sem eles.
  • Planeia o stock em função da incerteza. Um bom modelo devolve uma estimativa com incerteza: artigos com previsão estável precisam de menos stock de segurança, e artigos incertos precisam de mais.
  • Antes de mudar, corre o modelo em paralelo com o método atual durante algumas semanas e mede os erros dos dois, para decidir com números da tua própria operação.

Fontes

  1. Makridakis, S., Spiliotis, E., Assimakopoulos, V. (2022). M5 accuracy competition: Results, findings, and conclusions. International Journal of Forecasting, 38(4), 1346-1364.
  2. Makridakis, S., Spiliotis, E., Assimakopoulos, V. (2020). The M5 Accuracy Competition, Results, Findings and Conclusions (versão preliminar). Preprint dos autores.

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